Crianças, insegurança alimentar-nutricional e fome

O cenário da fome no mundo continua desolador, em especial para as crianças. Para a pesquisadora venezuelana Inês Jennifer Bernal Rivas, as crianças recebem inadequada dos programas de Segurança Alimentar. No texto que você lerá a seguir, a pesquisadora da Rede SSAN UNASUL explica que as metodologias de pesquisa dos institutos que colhem dados sobre a temática precisam se adequar à realidade dos pequenos e compreender suas necessidades específicas.

Por: Inés Jennifer Bernal Rivas

Em países em desenvolvimento 66 milhões de crianças vão à escola com fome (1), 165 milhões têm atraso no crescimento ou desnutrição crônica (2). Estas são crianças que não conseguirão seu máximo potencial de crescimento, tendo uma altura menor ao que geneticamente deveriam ter. Quase 20 milhões de pré-escolares padecem de má nutrição aguda grave. Nestes pequenos, qualquer doença, por simples que pareça, poderia levá-los à morte. Também outros 264 milhões trabalham, incluindo 168 milhões que sofrem as piores formas de trabalho infantil (3), que padecem ou estão em risco de insegurança alimentar – nutricional. A maioria tem deficiências de vitaminas e minerais essenciais para seu adequado crescimento e desenvolvimento.

A insegurança alimentar – nutricional se caracteriza por um inadequado acesso aos alimentos, alterações na quantidade e qualidade no consumo, afetações psicológicas e sociais, com conseqüências no desempenho educacional, mental, estado nutricional e até episódios de fome. Há um grande número de publicações realizadas sobre a insegurança alimentar – nutricional em adultos, poucas na população infantil.

Por diversos motivos o assunto não tem sido priorizado pelos países. Existem sinais de alerta que podem ser detectadas na escola. Os professores podem ser aliados na detecção quando as crianças estão em risco de viverem situações de insegurança alimentar – nutricional e/o fome. Um baixo rendimento na escola, distração, ausências escolares, dormir durante a aula ou mostrar pouco interesse são algumas dos sinais que as crianças nos mostram.  Por exemplo, hoje se observa na Venezuela, que muitas famílias levam as suas crianças a comprar alimentos durante a jornada escolar e faltam à escola, em detrimento do bem-estar destes e com o risco possível de abandono da atividade escolar.

Maiores riscos têm as crianças que não fazem parte de um sistema educativo, que estão expostos à delinquência, drogas e a estilos de vida inadequados.  O segundo objetivo do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas foca em “pôr fim à fome, realizar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável”, e permite priorizar nas agendas dos países as ações para alcançar a plena segurança alimentar e nutricional (4). Este objetivo faz especial menção às crianças com baixo peso ao nascer e àqueles menores de cinco anos, porém ainda existe uma brecha de informação e oportunidades que devemos dar à população entre 5 e 18 anos. A Convenção sobre os Direitos das Crianças da UNICEF assinala que “criança é todo ser humano desde seu nascimento até os 18 anos de idade” (5). A maioria dos planos e programas não incluem a devida atenção para esta população que ainda deve terminar seu crescimento e desenvolvimento integral.

As crianças são seres dependentes economicamente, necessitam de ajuda das pessoas que cuidam delas para comprar, selecionar, preparar e consumir uma dieta saudável. Estudos realizados na Venezuela (6-8), Estados Unidos (9-13) e Líbano (14) mostram evidências de como a insegurança alimentar-nutricional é manifestada pelas crianças desde os sete anos, com conseqüências nutricionais, educativas, psicológicas e sociais. Nestes estudos se mostra como as crianças manifestam se preocupar pela falta de alimentos nos lares e manifestações como menor qualidade de alimentos nas comidas, não receber alguma das refeições e até dormir sem ter comido (6, 11, 14).

As crianças sozinhas realizaram compras, tarefas domésticas, cuidado de outras crianças, cozinhar e cultivar alimentos (7). A ausência escolar, baixa estatura pela idade ou atraso no crescimento, o trabalho infantil e doméstico foi maior (7). Além disso, as crianças apontaram sentir vergonha quando não têm alimentos (15). Em estudos em que se comparou esta informação com a subministrada pelas mães, não se encontrou vinculação alguma, e quer dizer que, as respostas das crianças foram diferentes e refletiram maior insegurança alimentar-nutricional que o manifestado pelas suas mães (7 – 16). Organismos dedicados à atenção das crianças já tem decidido dar maior posicionamento à pesquisa sobre insegurança alimentar nas crianças para que os países tomem ações (17).

As experiências de insegurança alimentar-nutricional e de fome representam o sentir e as necessidades desde o olhar das crianças. Para a Rede de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, da UNASUL [Rede SSAN-UNASUL], é um grande desafio posicionar o estudo nas crianças, identificar os melhores indicadores que avaliem a situação, planejar estratégias que possam melhorar a situação e avaliar se as políticas dos países membros são eficientes e oportunas. As crianças são o bem mais valioso de uma sociedade e devemos regatá-los.

A pesquisadora

Inés Jennifer Bernal Rivas é Nutricionista, Mestre em Nutrição Humana e Doutora em Ciência. Pesquisadora e consultora independente em temas de insegurança alimentar e nutricional com ênfase em crianças, nutrição materno-infantil, intervenção que melhoram os estilos de vida baseadas em evidencia, avaliação de políticas e programas. Tem sido orientadora de estudantes de Mestrado, Doutorado e Ciência na Venezuela e tem colaborado como avaliadora de teses nos Estados Unidos, Colômbia, Bolívia e Peru. Colabora com a Pesquisa Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional na Colômbia. Participa como pesquisadora em projetos nos Estados Unidos, Espanha e Venezuela.

Este texto foi publicado em espanhol originalmente na Rede SSAN UNASUL.

Referências

1. World Food Programme. Hunger statistics. 2014 [citado 2014 January 13]; Available from: http://www.wfp.org/hunger/causes.

2. WHO. 10 datos sobre nutrição. [citado 2017 Enero 26]; Disponible en: http://www.who.int/features/factfiles/nutrition/facts/es/index1.html

3. ILO-IPEC. Marking progress against child labour – Global estimates and trends 2000-2012. Geneva, SW: International Labour Office, International Program on the Elimination of Child Labour (IPEC) – ILO; 2013.

4. PNUD. Objetivos de Desenvolvimento Sostenible. [citado 2017 Enero 26]; Disponible en:   http://www.undp.org/content/undp/es/home/sustainable-development-goals.html

5. UNICEF. The State of The World’s Children Special Edition Celebrating 20 Years of the Convention on the Rights of the Child. New York. [citado 2017 Enero 25]; Disponible en: http://www.unicef.org/publications/files/SOWC_Spec._Ed._CRC_Main_Report_EN_090409.pdf.

6. Bernal J, Frongillo EA, Herrera HA. Rivera JA. Children live, feel, and respond to experiences of

food insecurity that compromise their development and weight status in peri-urban Venezuela. J Nutr 2012. 142, 1343–1349.

7. Bernal J., Frongillo E.A., Herrera H.A. & Rivera J.A. Food insecurity in children but not in their mothers is associated with altered activities, school absenteeism, and stunting. J Nutr 2014. 144, 1619–1626.

8. Bernal, J., E. Frongillo, and J. Rivera, Food insecurity reported by children, but not by mothers, is associated with lower quality of diet and shifts in foods consumed. Maternal and Child Nutrition, DOI: 10.1111/mcn.12206, 2015.

9. Connell C, Nord M, Lofton K, Yadrick K.. Food security of older children can be assessed using a standardized survey instrument. J Nutr; 2004. 134:2566-2572.

10. Jyoti, D.F., E.A. Frongillo, and S.J. Jones, Food insecurity affects school children’s academic performance, weight gain, and social skills. Journal of Nutrition, 2005. 135: p. 2831-2839.

11. Fram MS, Frongillo EA, Jones SJ, Williams RC, Burke MP, DeLoach KP, Blake CE. Children are aware of food insecurity and take responsibility for managing food resources. J Nutr 2011. 141(6), 1114-1119.

12. Nalty C.C., Sharkey J.R. & Dean W.R. Children’s reporting of food insecurity in predominately food insecure households in Texas border colonias. Nutrition Journal 2013. 12, 15.

13. Burke MP, Martini LH, Çayır E, Hartline-Grafton HL, Meade RL. Severity of Household Food Insecurity Is Positively Associated with Mental Disorders among Children and Adolescents in the United States. J Nutr; 2016. 146(10), 2019-2026.

14. Ghattas, H., Aqeel, M., Sassine, A., Hwalla, N., & Sahyoun, N. (2014). Exploring Lebanese children’s experiences of food insecurity (378.2). The FASEB Journal, 28(1 Supplement), 378-2.

15. Bernal J, Frongillo EA, Jaffe K. Food Insecurity of Children and Shame of Others Knowing They Are Without Food. Journal of Hunger & Environmental Nutrition, 2016. 11(2), 180-194.

16. Fram, M.S., et al., Development and Validation of a Child Report Assessment of Child Food Insecurity and Comparison to Parent Report Assessment. Journal of Hunger & Environmental Nutrition, 2013. 8(2): p. 128-145

17. Fram, MS, Bernal J. Frongillo EA. The Measurement of Food Insecurity among Children: Review of literature and concept note, Innocenti Working Paper No.2015-08, UNICEF Office of Research, Florence, 2015.